Terça-feira, 13 de Julho de 2010

Como fomentar uma revolução empreendedora?

No último ranking do Banco Mundial do ambiente de negócios um país deu um salto espectacular: de 143º na lista, foi para a 67ª posição. Foi o Ruanda, que na década de 1990 teve a população e instituições dizimadas por um genocídio. No ranking “Ease of Doing Business”, o país saiu da companhia do Haiti, Libéria, Cisjordânia e Gaza e deixou para trás Itália, República Checa, Turquia e Polónia. Num dos requisitos do estudo, a facilidade de se abrir uma empresa, o Ruanda ficou em 11º lugar.

Para incentivar a criação de empresas e o crescimento, o governo precisa de montar um ecossistema de apoio ao empreendedor. Mas o governo não pode fazer tudo sozinho, a iniciativa privada e o sector terciário precisam também de se responsabilizar. É pois necessário que gestores de empresas, donos de negócios familiares, universidades, organizações profissionais, fundações, sindicatos, investidores, e até mesmo os empreendedores lancem e financiem cursos, conferências, pesquisa e defesa de políticas de empreendedorismo.

Um ecossistema de empreendedorismo é formado por uma série de elementos distintos – liderança, cultura, mercado de capitais, clientes com mente aberta – que se combinam de forma complexa. A maioria das vezes o Estado fomenta um ou dois destes factores, levando à falha da maioria das iniciativas. Assim sendo, devem os dirigentes políticos concentrar-se nestes nove princípios.

1- Não queira reproduzir “Silicon Valley”
A ambição quase impossível de criar outro “Silicon Valley” leva muitos governos à frustração e ao fracasso. Ninguém discute que o “Silicon Valley” é o exemplo acabado do ecossistema empreendedor, berço de gigantes revolucionárias como a Intel, Oracle, Google, eBay, Apple. O “Silicon Valley” tem tudo: tecnologia, capital, talento, uma massa critica de projectos e uma cultura que estimula a inovação colaborativa e tolera o fracasso. Ironia dos destinos, actualmente nem “Silicon Valley” conseguiria transformar-se naquilo que hoje é. Por mais difícil que seja promover um ecossistema que incentive a população actual a optar pela via empreendedora e nela triunfar, é ainda mais complicado criar uma Meca para o empreendedor.

2- Combine o ecossistema com as condições locais
Se o “Silicon Valley” não é uma meta, qual então, a visão empreendedora a que os dirigentes públicos devem aspirar? A coisa mais difícil (porém crucial) para um governo é adequar o seu esforço às dimensões, ao estilo e ao clima do empreendedorismo local.
A marcada diferença do Ruanda ilustra o princípio de que o líder pode e deve promover soluções internas – baseadas na realidade das suas circunstâncias específicas (recursos naturais, localização geográfica, cultura). No Ruanda o governo adoptou uma estratégia fortemente intervencionista nos anos que se seguiram ao genocídio, identificando três indústrias locais (café, chá e turismo) com reconhecido potencial de desenvolvimento. Organizou instituições para dar apoio a essas indústrias – ensinando, por exemplo o agricultor a cultivar e embalar o café segundo normas internacionais e colocando-o em contacto com os canais de distribuição no exterior. A prioridade do Ruanda era criar uma fonte de rendimento para milhões de cidadãos. A sua iniciativa fez aparecer 72 mil projectos empreendedores, triplicando as exportações e reduzindo a pobreza em 25%.

3- Envolva desde o inicio a iniciativa privada
O poder público não pode criar um ecossistema sozinho. Somente o sector privado tem a motivação e a perspectiva para desenvolver um mercado com fins lucrativos que se autosustente. Uma maneira de envolver o sector privado é pedir aos seus representantes, desde o inicio, conselhos sinceros para a redução dos entraves estruturais e para a concepção de políticas e programas favoráveis ao empreendedor.
Outro factor importante está relacionado com a gestão de fundos para investimento, mais conhecidos como fundos de capital de risco. Estes fundos devem sempre ser bipartidos, pelo Estado, e investidores privados com competências na gestão de recursos. O objectivo é que a médio prazo, estes fundos se autosustentem e sejam só geridos e detidos pela iniciativa privada.

4- Invista em iniciativas de elevado potencial
Muitos programas em economias emergentes distribuem recursos escassos por um sem fim de projectos na base da pirâmide. Mas concentrar os recursos ali em detrimento de projectos de elevado potencial é um erro gravíssimo. Numa era de popularização do microcrédito para pequenos empreendedores, realocar recursos para apoiar projectos de elevado potencial, pode parecer elitista e desigual. Mas, sobretudo se os recursos forem limitados, um programa deve focar-se em primeiro lugar em projectos ambiciosos, voltados para o crescimento e para grandes mercados potenciais.
Embora o número de postos de trabalho criados por 500 projectos individuais financiados pelo microcrédito e uma operação com 500 trabalhadores em acelerado processo de internacionalização possa ser o mesmo, muitos especialistas afirmam que a geração de riqueza, o poder de inspirar outros projectos, o enriquecimento da força de trabalho, a notoriedade são muito maiores no segundo caso.

5- Marque cedo um grande golo
Nos últimos anos, ficou evidente que um caso de sucesso, ainda que único, pode ter um incrível efeito estimulante sobre um ecossistema de empreendedorismo – ao despertar a imaginação do público e inspirar imitadores. A adopção do Skype por milhões de pessoas e a sua venda à eBay por 2.6 milhões de Dólares repercutiu-se por toda a Estónia, incentivando profissionais técnicos a abrir o seu próprio negócio.
O governo não deve medir esforços para celebrar projectos que correm bem. Eventos nos media, prémios altamente divulgados e menções em documentos, discursos e entrevistas do poder público exercem impacto.

6- Encare o desafio da mudança cultural
Mudar uma cultura profundamente arraigada é extremamente difícil, mas a Irlanda e o Chile mostraram que é possível alterar normas sociais respeitantes ao empreendedorismo em menos de uma geração. Até à década de 1980 trabalhar no governo, na indústria financeira ou na agricultura era o principal sonho de um jovem na Irlanda. A tolerância ao atraso no reembolso de empréstimos e a falência era algo estigmatizado. Na década de 1990, no entanto, com o caminho aberto por pioneiros de sucesso, centenas de empresas de software foram criadas na Irlanda. Algumas passaram a exportar, outras abriram o capital. Muitas conseguiram proveitos assinaláveis. E, igualmente importante, o empreendedor aprendeu que era possível não ter sucesso, voltar a organizar-se e tentar de novo.

7- Seja exigente
É um erro colocar muito dinheiro ao dispor do empreendedor, mesmo daqueles com grande potencial. Todos os projectos devem ser expostos desde muito cedo ao rigor do mercado. O poder público deve libertar dinheiro com cuidado, para garantir que o empreendedor adquira resistência e espírito criativo para ultrapassar problemas.
Há já muitos anos que incubadoras ou centros de empreendedorismo que dão ajuda financeira, orientação e, muitas vezes, espaço para novos projectos fazem muito sucesso entre os governantes. No entanto, há pouca evidência concreta de que esse tipo de programas (que custam muito) dê uma contribuição proporcional ao empreendedorismo.

8- Não planeie demais o cluster. Ajude-o a crescer por si.
Popularizada por Michael Porter, a estratégia de cluster for promovida pelo mundo fora por governos que a consideraram fundamental na promoção do espírito empreendedor e da competitividade económica. Embora um cluster empreendedor possa existir naturalmente e ser parte importante de um ecossistema, há apenas evidências informais de que no poder público possa ter um papel de relevo na sua criação.
Para o governo, o melhor é não ditar que sector será favorecido e libertar o espírito empreendedor do cidadão. A sua função é observar que rumo os empreendedores estão a seguir, abrindo caminho, com o discreto incentivo de uma actividade que já vingou.

9- Reforme estatutos jurídicos, burocráticos e legislativos
Para o empreendedorismo prosperar, é fundamental ter os estatutos jurídicos e legislativos certos. Inúmeros estudos apontam para uma série de reformas de impacto positivo na criação de empresas: descriminalizar a falência, proteger o accionista dos credores e permitir que o empreendedor comece de novo rapidamente. Outra reforma muito útil é mudar a tónica da protecção ao emprego para o apoio aos desempregados. Regimes de tributação simplificados facilitam também o empreendedorismo.

De entre os países da OCDE, Portugal ocupa o 22º lugar, no ranking “Ease Doing Business”, e o 48º lugar de entre os 183 países analisados. Questiona-se, será assim tão fácil fazer negócios em Portugal?

www.formspring.me/ilidiofaria

Ilídio Faria, Director FIDUCIAL
ilidio.faria@fiducial.com

0 comentários:

Enviar um comentário